Sobre escrever crônicas
É estranho escrever crônicas. Eu sou novato nisso, ou melhor, estou cortejando isso. Porque nos contos, a gente veste uma face, uma máscara, esconde a dor, o prazer atrás de algo, fantasia. A crônica não, ela está ali, assinada com nosso nome. Nos tirando o anonimato de sentir. Colocando nossa cara a tapa. Nos deixando vulnerável.
Mas isso será um desafio. Sim, para eu que sou tão blindado. E é bom se desafiar.
Mas é que falar sobre o que eu sinto é como uma pedra no rim. A ficção é água que passa pelos rins e a pedra vai se desfazendo em meio ao líquido. Ela se dissolve e sai facilmente como fluido corporal.
Quando falo o que eu sinto sem vestir essa máscara é como se a pedra descesse inteira pela minhas vias renais, para minha baxiga, uretra, etc. Só que em sua forma bruta. Rasgando tudo por dentro e me fazendo sangrar.
Mas eu sei que o que afia essa pedra. Não é o problema, a dor, ou qualquer uma dessas coisas. É eu me reconhecer fraco e mais que isso: os outros me reconhecerem. Sou homem. Não sei como é ser uma mulher e estar subjugada a uma sociedade machista. Mas o que sei é que o homem também sente. E se hoje me sinto pressionado a não revelar minhas fraquezas, a não me mostrar fraco, sei que é esse machismo impregnado em mim. Ou acho. Pode ser apenas meu egocentrismo me causando uma mania de perseguição, achando que as pessoas vão tentar usar isso contra mim.
E eu não sei se é porque eu encuquei isso esses dias. Mas parece que quando eu escrevo crônica e assino meu nome, como dizia Clarice, "É como se eu estivesse vendendo minha alma".
Porque imagine escrever: "Hoje eu me senti um fraco, uma pessoa desvalorizada"
E assinar "João Manoel Medeiros".
Se depois as pessoas perguntarem sobre isso, eu não posso dizer "licença poética, é meu personagem" porque sou eu.
E eu acho que tenho medo disso. Das pessoas descobrirem minhas fraquezas. Delas me interrogarem depois sobre o que eu sinto, porque quando a gente se sente assim é tão enjoativo que você não aguenta nem falar.
É como se eu tivesse me mostrando por completo, isso me assusta.
O pior é que os contos realmente tem muito de mim, na verdade, tem tudo de mim. Mas sei lá, o anonimato me parece tão legal, estranho dizer isso, eu sempre tive uma sede de fama.
É que no fundo. Lá no fundo mesmo, é como se eu soubesse que ao tirar essa máscara, eu vou ver quem eu sou realmente. Porque eu não sei quem sou realmente, há tempos que vivo nessa atuação e me esqueci.
Mas ao tirar essa máscara me vem o novo.
E se eu não gostar de quem realmente sou? Não sei. É que se eu me confirmar nessa retirada, eu perco o que já fui. Mas será que o que fui era algo bom?
Não sei e escrevo para me descobrir, ou me perder de vez.
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